27.8.06

Madalena não pensou que fosse chover tanto e agora estava sem guarda-chuva encostada ao ponto de ônibus sem nenhuma idéia de como ir embora quando uma pomba passou pela calçada à sua frente, encharcada e lenta, detendo-se por um instante e olhando para Madalena com seus olhos pequenos e muito escuros, como que lhe dizendo mentalmente algo feio acerca da chuva ou do peso das penas ou sobre não ter tido a felicidade de nascer gente e ter guarda-chuva, e agora Madalena via os olhos escuríssimos da pomba e sentia frio.

29.1.06

De lembranças

As lembranças mais importantes, Madalena guarda-as todas em uma caixa azul (as outras ficam esparramadas como fantasmas). Vez ou outra Madalena abre a caixa azul e tira de lá determinada lembrança; remove-lhe a poeira, coloca-a no sol. Fica uma tarde inteira olhando para a lembrança que dormita no parapeito da janela, sem desconfiar que a lembrança sonha, ainda que mantenha um dos grandes olhos abertos. Sonha com Madalena. Suspira. Pensa no adiantado da hora e sente grande vontade de voltar à caixa azul. E Madalena, por sua vez (e com muita freqüência), precisa secar com o dedo uma lágrima suja de rímel e pó-de-arroz.

20.12.05














Às vezes sol, mas não necessariamente. Difícil ver lepidópteros, mas quando acontece, é normal que venham falar com Madalena que faz um gesto bobo com as mãos, chamando a borboleta como se fosse um cachorro, ficando muito contente, maravilhada, quando a borboleta finge acudir ao chamado e voa na direção certa, ao que Madalena de pronto se assusta, encolhe-se toda e solta um gritinho, e então acredita que a borboleta se assustou e fugiu, quando na verdade apenas fingiu assustar-se. Madalena não sabe, mas não é ela quem chama e brinca e repele a borboleta, e sim a borboleta quem faz tudo isso com Madalena, uma doce maldade borboleteira com cheiro de verão antigo.

Literariamente falando.